
Tem dúvidas entre celebrar ou não celebrar o Halloween no pré-escolar? Não perca esta reflexão para educadores à luz das OCEPE. Leia tudo aqui:
Com a chegada do final de Outubro, é frequente vermos jardins-de-infância enfeitados com abóboras, chapéus de bruxa e teias de aranha. Mas se isto faz sentido em qualquer jardim-de-infância irlandês ou americano, fará sentido num português?
De facto, o Halloween é uma tradição de origem celta difundida pela cultura anglo-saxónica, e tem vindo a ganhar visibilidade também em Portugal, muito por influência dos meios de comunicação e dos supermercados e lojas que nos rodeiam.
Perante este cenário, coloca-se uma questão pertinente para os educadores de infância: deve o Halloween ser abordado ou até mesmo celebrado no contexto pré-escolar?
E, em caso afirmativo, como enquadrar esta tradição de forma coerente com as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (OCEPE, 2016)?
O valor educativo das celebrações
Se é certo que o currículo em educação de infância não se pode de forma alguma basear nas celebrações impostas pela agenda cada vez mais preenchida de qualquer calendário atual, e que “celebração” não é o termo certo para o trabalho que diariamente se faz em contexto educativo seja qual for a temática; também é verdade que as OCEPE (Ministério da Educação, 2016) destacam a importância de proporcionar experiências que favoreçam o sentido de pertença, a participação em tradições e costumes da comunidade e o reconhecimento da diversidade cultural.
Deste modo, as celebrações, que preferimos chamar de tradições — sejam locais, nacionais ou internacionais — podem constituir contextos de aprendizagem significativos, desde que planeadas intencionalmente, com objetivos pedagógicos claros e ajustadas à especificidade das crianças.
O Halloween entre a tradição e a globalização
Embora o Halloween não faça parte das tradições populares portuguesas, tornou-se uma referência presente no quotidiano das crianças. De acordo com as OCEPE, o educador deve partir das vivências e interesses do grupo, integrando temas que lhes sejam familiares e socialmente relevantes.
Neste sentido, se o grupo de crianças demonstrar curiosidade ou interesse em abordar o Halloween, este projeto de investigação ou celebração poderá permitir contextualizar e compreender fenómenos culturais globais, promovendo uma educação para a cidadania e a interculturalidade, que são princípios orientadores das OCEPE. Ignorar totalmente esta tradição poderá significar perder uma oportunidade educativa para trabalhar valores de respeito e curiosidade pelo que é diferente.
Argumentos a favor de celebrar o Halloween
Integrado de forma intencional, o Halloween pode contribuir para várias áreas de desenvolvimento previstas nas OCEPE:
Exploração das emoções — O medo, a surpresa e a curiosidade podem ser explorados simbolicamente através de histórias, dramatizações e jogos, favorecendo o autoconhecimento e a gestão emocional.
Estimulação da imaginação e do jogo simbólico — As fantasias e disfarces promovem o pensamento criativo e a expressão dramática, enquadradas na área de Expressão e Comunicação.
Conhecimento do mundo — Comparar o Halloween com tradições portuguesas como o Pão por Deus ajuda as crianças a compreender semelhanças e diferenças culturais, reforçando o sentido de identidade e pertença.
Aprendizagens integradas — O tema permite ligar várias áreas: linguagem oral (rimas, histórias), matemática (formas, contagens), expressão plástica (criação de máscaras, abóboras) e exploração da natureza (animais noturnos, frutos do outono).
Argumentos de cautela ou de não celebração
Apesar das potencialidades, importa refletir sobre alguns desafios e limitações:
Pertinência cultural — A valorização de tradições estrangeiras pode, inadvertidamente, desvalorizar as tradições locais e populares portuguesas, contrariando o princípio de reforço da identidade cultural.
Consumismo — O Halloween é muitas vezes associado à compra de disfarces e decorações, o que pode desvirtuar o sentido pedagógico da celebração.
Adequação etária — Elementos assustadores (fantasmas, monstros, sangue) podem ser demasiado intensos para crianças pequenas, exigindo uma abordagem cuidadosa.
Abordagens pedagógicas equilibradas
Mais do que decidir entre abordar ou celebrar VS não celebrar, o essencial será como abordar este tema. À luz das OCEPE, o educador deve ser um mediador cultural, capaz de integrar novas referências sem perder de vista a identidade local e o bem-estar das crianças.
Alguns aspectos a ter em conta poderão ser:
Comparar tradições, abordando o Pão por Deus e o Halloween, realçando o valor da partilha, da comunidade e da solidariedade.
Valorizar o jogo simbólico e a criatividade, dando às crianças liberdade para criar as suas próprias personagens e histórias.
Dialogar sobre as emoções, ajudando-as a transformar o medo em humor e curiosidade.
Envolver as famílias, explicando as intenções educativas e acolhendo as suas opiniões e contributos.
O que se concluiu com esta reflexão?
As Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (2016) lembram-nos que o papel do educador é organizar intencionalmente o ambiente educativo, criando oportunidades de aprendizagem significativas e culturalmente pertinentes para o seu grupo de crianças.
Abordar ou celebrar o Halloween no pré-escolar não deve ser uma obrigação, mas pode constituir uma oportunidade educativa quando vivida com intencionalidade, criatividade e respeito pelos interesses e necessidades de cada grupo de crianças.
Mais do que uma festa, deve ser uma oportunidade de descoberta, expressão e partilha, onde se valorizam as emoções, a imaginação e a diversidade cultural — sempre em coerência com os princípios orientadores das OCEPE.
Referência bibliográfica
-Lopes da Silva, I. (coord.) (2016). Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar. ME/DGE. http://www.dge.mec.pt/ocepe/sites/default/files/Orientacoes_Curriculares.pdf


