Desafiamo-lo com este artigo a criar ambientes de bem-estar na creche ou motivar a sua equipa a fazê-lo: da teoria à prática!

O tema surgiu de uma das nossas partilhas de práticas (formações) da Academia ChildDiary, pela voz de uma educadora que transportou o seu conhecimento para palavras.

“Passamos a palavra” a Clara Rosário, uma educadora com 15 anos de experiência leia tudo aqui:

O bem-estar e a sua relação com a qualidade do ambiente educativo

No âmbito de uma partilha de práticas, que a equipa da ChildDiary me desafiou a fazer, sobre o bem-estar e a sua relação com a qualidade do ambiente educativo, apresento a proposta de avaliação de Ferre Laevers, concretizada no Instrumento de Observação do Bem-Estar da Criança, e alguns exemplos da sua utilização na minha prática profissional.

A Pedagogia-Em-Participação

Na Pedagogia-Em-Participação, o educador é um especialista que constrói quotidianos educativos que respeitem e honrem os Direitos da Criança, e que sabe que precisa de garantir um ambiente enriquecedor e diversificado, promotor de bem-estar e envolvimento. Sabe, para isso, que precisa de construir parcerias com as famílias e com os seus pares profissionais, apostando seriamente em trabalho de equipa e em formação-em-contexto. Para a Pedagogia-Em-Participação, crianças e adultos são co-construtores da aprendizagem, pensando, agindo e refletindo em conjunto para construir conhecimento.

Porque é que falamos, então, de bem-estar? Porque é que o consideramos um critério pedagógico?

A resposta é clara: porque entendemos que o bem-estar é um dos principais fatores de qualidade de um contexto educativo; é um direito das crianças, das famílias e dos profissionais e, por isso, é também um dever de toda a comunidade educativa; e é condição de desenvolvimento e aprendizagem. 

Efetivamente, a relação entre o bem-estar e a qualidade é muito estreita e interdependente. O bem-estar e a qualidade influenciam-se mutuamente: quanto mais se trabalha para conquistar bem-estar, maior a qualidade do contexto educativo; de igual modo, quanto maior a qualidade do contexto, maior e melhor será a experiência de bem-estar. Isto implica um trabalho intenso e permanente de reflexão e avaliação por parte dos profissionais sobre a qualidade dos ambientes educativos que constroem. 

Se pensarmos nas diferentes dimensões pedagógicas com a intencionalidade de gerar sempre mais bem-estar, estamos claramente a contribuir para a qualidade do contexto educativo e para a qualidade das vivências dos bebés e crianças, das famílias e dos profissionais. É que o bem-estar não é imediato, nem definitivo. Não pode ser um ato isolado, tem de ser uma construção, no quotidiano, em cada momento, um processo contínuo e sistemático. A busca pelo bem-estar e pela qualidade torna-se um modo de ser e de fazer pedagogia.

Quando garantimos o direito da criança a ter voz e a ser escutada, estamos a assegurar bem-estar e a contribuir para a qualidade do contexto educativo. 

Quando construímos parcerias e colaboramos com as famílias, estamos a reforçar sentimentos de pertença das próprias, e das crianças, e estamos a cimentar o seu bem-estar: famílias tranquilas e envolvidas, seguras e confiantes, significam crianças tranquilas e envolvidas, seguras e confiantes. O inverso é igualmente verdade – existe circularidade ao nível do bem-estar. 

Quando refletimos, em equipa educativa de sala (e de instituição), sobre a qualidade e sobre o bem-estar, estamos a construir um olhar comum, uma intencionalidade partilhada, e estamos a analisar e a avaliar para melhorar. 

Considerar que o bem-estar é condição de desenvolvimento e aprendizagem, significa que concordamos que aprender com bem-estar elevado é diferente de aprender com bem-estar reduzido. Viver experiências de aprendizagem significativas cria sentimentos de bem-estar, e experienciar sentimentos de bem-estar fornece condições para aprender de forma significativa. Do lado oposto, é sabido que a insuficiência ou ausência de bem-estar nos primeiros anos de vida por um longo período de tempo pode ter consequências problemáticas para o desenvolvimento e aprendizagem. 

Por tudo isto, concordamos que o bem-estar e a qualidade não são um luxo nem um capricho.

Mas, então, como se pode avaliar o bem-estar? Em que nos baseamos para falar de bem-estar? 

Baseamo-nos no conceito de bem-estar introduzido por Ferre Laevers, que o descreveu como uma dimensão da atividade do aprendente, em que se ele se encontra “como peixe dentro de água”. 

Laevers propôs o bem-estar como indicador válido acerca de processos protagonizados pela pessoa, centrando-se no seu estado emocional e comportamental, podendo ser analisado a partir de um conjunto de sinais/indicadores. São eles a satisfação, o relaxamento e paz interior, a vitalidade, a abertura, a auto-confiança e o estar em sintonia consigo próprio. Estes indicadores compõem o Instrumento de Observação do Bem-Estar da Criança.

Para utilizar este instrumento, é pedido ao profissional que observe, registe, documente as vivências e depois faça uma análise atribuindo níveis de bem-estar, através de uma escala Likert, com notação de 1 (bem-estar muito baixo) a 5 (bem-estar muito elevado), consoante a quantidade de indicadores reunidos. Portanto, em primeiro lugar, explicitam-se os indicadores observados, e só depois é que se atribui o nível de bem-estar. O instrumento inclui ainda uma descrição dos comportamentos observáveis em cada nível, de modo a facilitar a análise e as decisões tomadas sobre os níveis a atribuir. 

Partilho alguns exemplos de como experimentei utilizar este instrumento, procurando explicitar não só a sua versatilidade como também o modo como os seus pressupostos e princípios definem, em permanência, a intencionalidade pedagógica.

Exemplo 1:

A página de um portefólio individual que narra a vivência de um bebé perante uma proposta de exploração de tinta orgânica, e revela como a equipa deu prioridade ao seu bem-estar, percebendo que a proposta não foi bem recebida, à primeira… Suspender, refletir, adequar e arriscar num novo desenho da mesma proposta:  nesta situação, foi suficiente proporcionar ao bebé uma exploração sustentada pela interação adulto-criança em contexto individual (em vez de ser em pequeno grupo) procurando garantir maiores condições de experienciar níveis elevados de bem-estar.

Exemplo 2: 

No portefólio de uma criança, a narrativa de um conjunto de vivências referentes ao regresso à creche, após as férias. Os sinais/indicadores de bem-estar verificados são apresentados, associando-lhes um descritivo específico, e conclui-se com o nível de bem-estar correspondente. Associar o comportamento/ação/vivência da criança ao indicador de bem-estar clarifica o que significa cada um dos sinais e o que foi considerado como elemento relevante para a avaliação.

O Instrumento de Observação do Bem-Estar da Criança é versátil. Permite múltiplos contextos de utilização. Aliás, utilizá-lo para analisar diferentes momentos, vivências, dimensões vai contribuir para a coerência da prática pedagógica. O bem-estar terá de ser critério para “o antes, o durante, e o depois da ação”, e precisará de abranger todas as dimensões pedagógicas do ambiente educativo. Antes, ao planificar, quando refletimos, decidimos, organizamos. Durante, nos nossos modos de interagir e de nos envolvermos, ao desfrutarmos, quando nos suspendemos, na flexibilidade e abertura ao emergente, e também nas estratégias que utilizamos para observar e registar enquanto tudo isto acontece, … Diferentes funções profissionais em simultâneo. Depois, ao avaliar, quando damos significado ao vivido, através da documentação, e a partilhamos falando sobre o bem-estar e sobre o desenvolvimento e a aprendizagem. 

E depois? Depois, nunca se quebra este continuum experiencial.

Nota biográfica de Clara Rosário

Clara Rosário, 36 anos, mãe do Diogo e da Diana. É educadora de infância, desde 2010, pela Universidade do Minho. Há quinze anos começou a trabalhar no Centro Infantil Olivais Sul (CIOS), uma IPSS em Lisboa, gerida, até agosto de 2024, pela Fundação Aga Khan Portugal e, atualmente, pela Fundação O Século. O CIOS tem tem sido o seu contexto de crescimento e desenvolvimento profissional. Na companhia de muitos colegas de excelência, tem aprendido a desenvolver a Pedagogia-Em-Participação em Creche e em Educação Pré-Escolar, em processos intensos de formação-em-contexto, com grupos de crianças desde os 4 meses aos 6 anos.

Referências bibliográficas:

  • Araújo, S. B. (2013). Dimensões da pedagogia em creche: Princípios e práticas ancorados em perspetivas pedagógicas de natureza participativa. In J. Oliveira-Formosinho e S. B. Araújo, Educação em Creche: Participação e Diversidade. Coleção Infância, 18. Porto: Porto Editora, pp. 29-74
  • Araújo, S. B. (trad.) (2007). Escala de Observação do Bem-Estar e do Envolvimento da Criança. Braga: Associação Criança
  • Fundação Aga Khan Portugal (org.) (2021). Pedagogia-em-Participação: Construindo a Qualidade em Educação de Infância. Lisboa
  • Laevers, F. (ed.) (2005). Well-being and Involvement in Care. A process of self-oriented self-evaluation instrument for care settings. Leuven: Kind e Gezin and Research Centre for Experiential Education. Retirado de https://emotionallyhealthyschools.org/wp-content/uploads/2020/09/sics-ziko-manual.pdf
  • Machado, I. (2014). Avaliação da qualidade em creche: um estudo de caso sobre o bem-estar das crianças. Tese de Mestrado em Educação de Infância. Braga: Instituto de Educação da Universidade do Minho
  • Oliveira-Formosinho, J. (2018). Pedagogia-em-Participação: Modelo pedagógico para a educação em creche. In J. Oliveira-Formosinho e S. B. Araújo (eds.), Modelos Pedagógicos para a educação em Creche. Coleção Infância, 22. Porto: Porto Editora, pp. 29-70

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