Neste artigo exploramos o tema do cuidado na primeira infância e práticas com intencionalidade contadas na primeira pessoa, não perca!

O tema surgiu de uma das nossas partilhas de práticas (formações) da Academia ChildDiary, pela voz de uma educadora que transportou o seu conhecimento para palavras.

“Passamos a palavra” à Rita Cunha, uma educadora que também teve experiência como auxiliar leia tudo aqui:

Ao ser desafiada pela equipa da ChildDiary para abordar a temática dos cuidados em creche plasmados na minha prática profissional, refletimos sobre a indissociabilidade de conceitos como cuidar e educar, assim como a importância de oferecer qualidade pedagógica à criança em qualquer momento do dia.

Em educação de infância, cuidar e educar são considerados um binómio indissociável. O ato de cuidar envolve a atenção à criança como pessoa, olhando-a “com olhos de ver”, compreendendo a sua singularidade e respondendo às suas necessidades. Educar, por sua vez, propicia situações de aprendizagem e desenvolvimento, integrando cuidados, brincadeiras e atividades que contribuam para o crescimento da criança. 

Sabemos, atualmente, que a creche se configura um espaço privilegiado para a ocorrência de interações e de aprendizagens, enquanto se assegura a satisfação das necessidades básicas dos bebés e crianças. Durante esses cuidados básicos, nas interações que se mantêm entre adulto-criança e entre pares, as crianças aprendem sobre o seu próprio corpo, sobre relações sociais e sobre o mundo que as rodeia. 

Se compreendemos, então, que ao cuidar estamos a educar, não serão os momentos de cuidados básicos realizados numa rotina de creche merecedores da mesma atenção pedagógica que as atividades de expressão plástica ou de desenvolvimento motor? Parece-me pertinente debruçarmo-nos sobre este assunto, se não vejamos:

Alimentação 

Segundo as Orientações Pedagógicas para Creche (Marques et al., 2024), documento orientador da prática educativa nesta valência, “as refeições constituem um espaço privilegiado de encontro e interações sociais, que requerem um clima tranquilo, positivo e prazeroso” (p. 57).  Como pode, então, o educador de infância, estruturar pedagogicamente estes momentos de forma a potenciar aprendizagens plurais?

1. Começar por organizar o ambiente, quer seja o refeitório ou a sala de atividades (realidade existente em muitas creches portuguesas), optando por mobiliário adequado à criança e garantindo uma separação do espaço de refeição do espaço de brincar.

2. Promover a autonomia da criança, ao pedir a sua ajuda para distribuir os babetes, copos, guardanapos, etc., pelos colegas e permitindo que a criança se alimente sozinha utilizando os talheres ou as mãos.                

                                                                                                         

3. Oferecer e incentivar a criança a provar alimentos diferenciados, considerando que é necessário provar mais do que uma vez um alimento para perceber se gosta ou não do mesmo é importante incentivar, sem obrigar. Provar junto da criança e dar o nosso exemplo pode incentivar a criança a fazer o mesmo.

4. Promover formas de estar corretamente à mesa;

5. Promover um ambiente tranquilo e positivo durante as refeições: os refeitórios, por si só, e especialmente quando partilhados podem ser locais com algum ruído, pelo que é essencial manter uma comunicação próxima e positiva com as crianças.

6. Promover interações sociais entre crianças, incentivando-as a ajudarem o amigo, dizendo o nome de cada um dos amigos da mesa enquanto decorre a refeição e promover o diálogo entre crianças.

7. Descentrar-se de si e olhar para a criança como ser individual: é importante que o adulto entenda que a criança tem preferências assim como qualquer pessoa, que compreenda que o momento da refeição não deve ser um campo de batalha e que as rejeições e comportamentos atípicos da criança não são “ataques” ao adulto e sim formas de comunicar alguma frustração/dificuldade que necessitam de ajuda do adulto para se regularem emocionalmente.

Higiene

Os momentos de higiene são frequentes em creche, quer seja nas trocas de fraldas ou nas idas à casa de banho para lavar as mãos ou para utilizar a retrete. Devido ao rácio adulto-criança cada vez mais díspar e à agitação que um dia em contexto escolar apresenta, estes momentos são muitas vezes desvalorizados e vividos em “modo automático”. Sabemos, no entanto, que são momentos de extrema relevância não só para assegurar as necessidades das crianças, como para a aquisição de inúmeras competências, tornando-se, por isso, essencial, pensar estes momentos de forma pedagógica, nomeadamente:

1. Adequar o ambiente: no caso de existir um fraldário na sala, adequar o espaço para ser o mais resguardado possível, oferecendo privacidade à criança; no caso de utilizar a casa de banho, oferecer mobiliário adequado à criança promovendo a autonomia e segurança; organizar os pertences de cada criança conferindo-lhe individualidade;

2. Promover um ambiente tranquilo e positivo: podendo ser momentos de maior agitação, é importante delinear estratégias para estes momentos como cantar uma canção enquanto esperam pela sua vez, contar uma história, etc. Importa garantir uma comunicação assertiva, mas empática e positiva com a criança.

3. Comunicação de um para um: este é sem dúvida um momento privilegiado para manter contacto individualizado com cada criança. Como nos mostram Post e Homann (2011), “através das interações pessoais carinhosas envolvidas nos cuidados de higiene corporal, as crianças têm oportunidade de construir relações de confiança com o educador e de ganharam um sentido de segurança no contexto de grupo que é a creche” (p.229).

 

4. Promover a autonomia e a comunicação: durante as idas à casa de banho é importante munir a criança de confiança e deixá-la fazer parte destes momentos. Incentivar a criança a lavar as mãos sozinha, a retirar um papel para as secar e a colocá-lo no lixo, assim como abrir e fechar as torneiras antes e após a sua utilização, reforçando a importância destas práticas. Durante a muda da fralda, manter contacto direto com a criança, conversar com ela e incentivá-la a fazer parte do momento: encontrar os seus pertences na gaveta, ajudar a puxar a sua roupa, pentear-se e tentar calçar/descalçar os sapatos.

5. Promover as interações sociais entre crianças: incentivar as crianças a ajudarem o amigo (a abrir e fechar a torneira, a partilhar um papel para a secagem das mãos, etc.), promover a conversação entre as crianças durante os momentos de espera.

6. Respeitar o ritmo de cada criança: disponibilizar tempo para que a criança possa realizar as tarefas ao seu ritmo e incentivar a criança a fazê-las sozinha. No que diz respeito ao desfralde, é importante respeitar o ritmo da criança de forma a realizar um desfralde consciente, sem exigências e pressões. O desfralde é da criança e não do adulto. 

Sesta

Por fim, pensemos então sobre a sesta. Se pensarmos que grande parte das crianças pequenas se encontra em privação de sono, devido ao número de horas de sono noturno inferior ao recomendado (Vasconcelos et. al, 2017), compreendemos que a sesta pode ajudar a colmatar os danos nocivos de um sono noturno insuficiente.  Além disso, o sono na infância apresenta efeitos positivos na felicidade, regulação emocional, saúde física e mental, concentração e atenção, desempenho cognitivo, resiliência, aquisição de vocabulário, consolidação das aprendizagens e memória (Estevão, 2019; Mendes, 2008; Vilelas et al., 2023). 

Compreendendo todos os benefícios inerentes a um sono de qualidade, torna-se essencial pensar e organizar a sesta de forma a garantir a qualidade do sono das crianças, nos mais diversos aspetos, mais concretamente:

1. Organizar o ambiente: para potenciar um sono de qualidade é primordial pensar o ambiente físico onde decorrerá a sesta. 

         

2. Reduzir os estímulos sonoros perturbadores: é importante garantir a calma durante a sesta e a ocorrência de barulhos extremos vindos do exterior podem influenciar negativamente a sesta. Utilizar música relaxante de fundo pode ajudar a dissipar algum ruído externo.

3. Realizar atividades calmas antes da sesta: os momentos de transição entre rotinas/atividades são por vezes desafiantes e na transição para a sesta não é diferente. Passar de um ambiente ativo para o momento de dormir pode carecer de algum tempo para o retorno à calma e, por isso, podem realizar-se atividades calmas que o facilitem, como ouvir uma história, explorar garrafas sensoriais ou materiais menos estimulantes, ou utilizar materiais que potenciem a autonomia e o retorno à calma – painel com as fotografias das crianças onde devem colocar os seus sapatos e pequenos pertences quando chegam ao dormitório. 

4. Potenciar a autonomia e entreajuda: os momentos que antecedem e precedem a sesta podem ser, por excelência, potenciadores de autonomia, assim seja permitido à criança. Antes de dormir, é importante incentivá-las a encontrarem a sua cama, descalçarem os seus sapatos, colocá-los no sítio certo e deitarem-se de forma autónoma. Da mesma forma, incentivar as crianças a ajudar os colegas nestes momentos pode ser transformador no que concerne às aprendizagens.

5. Acolher a criança, oferecer conforto direto e objeto de conforto sempre que necessário: o momento de adormecer é bastante pessoal. Usualmente, as crianças associam esta rotina a um momento familiar, como acontece no sono noturno com a presença dos pais. Por isso, é necessário oferecer conforto à criança e transmitir-lhe segurança para que possa dormir tranquilamente. Os objetos de conforto têm como função fornecer segurança à criança na ausência dos familiares e podem ser grandes aliados no momento de dormir, caso sejam utilizados pela criança. Estes objetos podem ser: mantas/cobertores, almofadas, chuchas, peluches, fraldas de pano, peças de roupa de familiares, etc.

                   

Muito se fala, felizmente, de qualidade e de aprendizagem em educação. Dedicamos muito do nosso tempo, enquanto educadores, a pensar, estruturar e planear atividades para desenvolver a criatividade, as competências motoras e cognitivas das crianças. Organizamos os dias em função das aprendizagens que desejamos que as crianças adquiram sem nos apercebermos que muitas delas se desenvolvem nos contextos de rotina e que merecem toda a qualidade que lhes podermos dedicar.
Conquanto sejam usualmente vividos com alguma pressa e pouca deliberação consciente por parte do adulto, podemos concluir que estes momentos de rotina estão repletos de aprendizagens e competências à espera de serem potenciadas, e que através destes contextos, as crianças são chamadas a aprender.
No fundo, a criança merece qualidade em todos os momentos do dia que vive na creche e é por isso fundamental capacitar educadores, auxiliares e toda a comunidade educativa da importância destes momentos para o desenvolvimento da criança. Que tenhamos sempre em mente que uma muda de fralda não se encerra num ato mecânico que garante o direito da criança aos cuidados de higiene, mas que é, também, um momento privilegiado para a ocorrência de interações calorosas e de qualidade e para a aquisição de competências sociais, emocionais e cognitivas. Que compreendamos que todos os momentos vividos em contexto escolar têm relevância pedagógica e poderão ser palco das grandes aprendizagens que delineamos para o grupo. Que sejamos adultos que escutam, respeitam, acolhem e ajudam crianças a crescer felizes e autónomas. Que tenhamos intencionalidade em tudo o que fazemos.

Nota Biográfica Ana Rita Cunha:


Ana Rita Cunha, 32 anos, educadora de infância. Licenciada em Educação Básica e Mestre em Educação Pré-Escolar pela Escola Superior de Educação de Lisboa.
Exerceu funções como Auxiliar de Ação Educativa durante sete anos antes da formação académica. Defende uma educação respeitosa onde a criança é o centro da ação, assente em valores como a liberdade, respeito, empatia e onde as relações são, também elas, centrais. Atualmente encontra-se a viver a creche com muita dedicação, a descobrir todos os dias a beleza desta faixa etária e a reafirmar a sua relevância.

Referências Bibliográficas:
Estêvão, M. H. (2019). Os miúdos e a sesta, Sim ou não e até quando? Centro Cirúrgico de Coimbra.
Marques, A., Azevedo, A., Marques, L., Folque, M. A. & Araújo, S. B. (2024). Orientações Pedagógicas para Creche. Ministério da Educação/ Direção-Geral da Educação (DGE).
Mendes, R. M. N. (2008). A criança, o sono e a Escola. Revista Referência, 7, 7-19.
Post, J., & Hohmann, M. (2007). Educação de bebés em infantários: cuidados e primeiras aprendizagens. Fundação Calouste Gulbenkian.
Vasconcelos, A., Prior, C., Estevão, H., Loureiro, H. C., Ferreira, R., & Paiva, T. (2017). Prática da sesta da criança nas creches e infantários, públicos ou privados. Sociedade Portuguesa de Pediatria, 1-8. https://tinyurl.com/say8tuk
Vilelas, J. M. D. S., Marques, J. M., Jacinto, B. B., Correia, A. I. H. P., Apóstolo, J. M. A., & Pestana, V. L. F. (2023). Guia Orientador de Boas Práticas: O sono na criança e no adolescente. Papa-Letras.

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